Narrativa
Não havia completado seis meses de vida quando meus avós, filhos de imigrantes, encantados com a marcha para o oeste (fenômeno da década de 70) decidiram dar mais um passo, reunir toda a família, e cruzar a fronteira rumo ao Paraguai. Ali vivi até os meus 22 anos, aprendi amar a cultura do povo paraguaio e considero até o hoje que o Paraguai é Che Ròga (minha casa).
Quando migrei de volta para o Brasil, não senti que era uma volta, mas uma verdadeira migração, a minha migração. Os conceitos de estado nação, de fronteiras não faziam sentido e passei a questioná-los. Talvez isso tenha moldado o meu modo de atuar, o modo de como passei a entender a luta por direitos e na maneira de ver a política e as políticas públicas. Passei a acreditar que para ser feliz não era necessário pertencer a esse ou aquele país, pelo simples fato de sermos membros da família humana.
Quando fui desafiado a encontrar um objeto, uma imagem que dialogasse com o meu mundo e com a minha realidade, um filme passou pela minha memória, senti-me maranhado, um ñanduti. Lembrei-me que ainda muito garoto ganhei de presente uma camisa típica paraguaia. Uma camisa vermelha, de cor forte. Nessa camisa havia um bordado, um bordado feito a mão e muito rico em detalhes. Aquilo me deixou intrigado e ao ler Josefina Plá e a sua poesia do ñanduti entendi que aquilo tinha tudo a ver comigo, com os meus sentimentos, como a minha vida.
Aqueles pontos de agulhas entrelaçados formavam uma tela de aranha perfeita, e era assim que eu me sentia. Josefina Plá dizia que o ñanduti era pura poesia, a imagem híbrida em sua esplendorosa estética e que ao permanecer mudo seria apensas arte pela arte, mas ao cobrar voz se transfora em yopará, mescla de idiomas, mescla de passado e presente, do que fomos e do que somos. Imagens e formas que permitem uma reflexão sobre diversas interações, encruzilhadas e mutações entre culturas.
É por isso que levo comigo sempre um pequeno ñanduty que também têm origem no verbo, portanto é ação, é sentimento, é sentir é ñandu.