Narrativa
O relógio é praticamente um objeto em extinção, e se fosse um ser vivo, o Greenpeace e o IBAMA já estariam preocupados com o seu destino. E um carrilhão de mesa, que é um relógio volumoso, que necessita de corda e emite sons a cada hora ou em intervalos de 15 ou 30 minutos, seria uma espécie de ornitorrinco. Como todo relógio de corda, trata-se de um companheiro exigente, para quem a falta de dedicação e de interesse é respondida com um silencioso abandono. Sem que lhe dê-em corda, o corpanzil imóvel transmite sua inércia para seu mecanismo, e ele para. Quando o olho, em sua aparente inutilidade, transparecem para mim dois motivos para inveja-lo: pelo menos para ele o tempo não existe mais e, mesmo assim, duas vezes por dia ele sempre está certo! Para nós, no entanto, não só o tempo não para como a profunda convicção de que estamos certos, em geral, significa somente que, na maioria das vezes, estamos apenas mal informados.