Este é um copo da marca Nadir. Mas este não é somente um copo da marca Nadir. Além do design fantástico, ele já pertenceu ao campo do fantástico para além de seu design. Este copo tem cerca de trinta anos, e era usado por meu pai em seu ofício. Era uma das principais "pulgas atrás da orelha" que ele proporcionava. Dentre tantas que proporcionava, que proporcionou. Era seu objeto de trabalho, e por esse motivo, não nos era permitido utilizá-lo de forma cotidiana. Que trabalho era esse? Meu pai era mágico. Não no sentido de ser uma pessoa fantástica, mas no sentido do profissional circense. Não que não fosse uma boa pessoa, mas como todos os humanos, trilhou um caminho tortuoso e cheio de contradições e mistérios. Após seu falecimento recente (14/07/2020) este copo adquiriu mais valor ainda. De certa forma, me comunicava com meu pai ao subverter a sacralização imposta por ele. A mágica era cotidiano, por que agora não haveria de ser? Em seu-meu copo, colocava (assim como ele) 1/3 de café. Raramente punha outra bebida ou usava pra outro objetivo. O café que meu pai tanto gostava. Amava tanto que bebia inclusive do solúvel, com seu gosto emborrachado de multi- processos. Esse copo era algo como saudade. Hoje ele é assim. Um caco. Mudou seu modo de existência de copo para um grupo de cacos. Me reconheço nele. Eu o entendo. Mudar de forma é um jeito de permanecer vivo. Mais vivo ainda, é aquele que muda a forma das coisas. Só os vivos o fazem. Hoje o copo me derrubou ao ser derrubado. Mesmo entendendo a situação, me pergunto: será que se espatifou também a magia que havia em mim? As vezes algo precisa ser constantemente sacralizado para que permaneça intacto.