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Ferramentas
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Título
Ferramentas
Narrativa
Ferramentas "Quem faz artesanato não vende apenas um produto. Vende um pedacinho do coração."
"Hoje ele senhor das suas mãos e das ferramentas" (Chico Buarque de Holanda)
Ferramentas sempre me encantaram, Meu avô materno (Manuel Nieto Velasco) de família malaguenha como Pablo Picasso, assim como meu avô paterno (João Aniceto), que viveu na Cordisburgo do grande Guimarães Rosa e que não conheci, tinham suas vidas pautadas pelas ferramentas dos séculos XIX e XX. Lembro-me da destreza de meu avô Manolo com o serrote e os formões, dos entalhes, dos encaixes que fazia na madeira e como fazia reciclagem, transformando móveis e brinquedos antes mesmo dessa palavra ganhar a força que tem hoje.
Meu pai, com seus braços fortes, empunhava grandes marretas de ferro, com as quais batia arames que haviam servido para amarrar fardos de celulose. Ele os enrolava em chapas de ferro fazendo molas e depois as abria e tecia telas, alambrados, com os quais separava as galinhas da horta em nosso quintal. As marretas e barras de ferro eram pesadas para o menino franzino que eu era, o que aumentava ainda mais a minha admiração pela força dos braços que erguiam as marretas.
Em sua mão canhota faltava um dedo, engolido pela grande, imensa máquina de papel na qual ele trabalhou por 40 anos. Claro que a destreza e os braços fortes eram importantes nas operações que transformavam matéria-prima em objetos, cercas, brinquedos, móveis. Mas ferramentas de qualidade eram igualmente fundamentais. Stanley, Ramada, Corneta...nomes que me vêm à memória quando se trata de ferramentas. Vinham em geral do outro lado do mundo, em caixas de madeira e tinham lendas e segredos em sua história.
Assim, trago em meu dedo indicador da mão esquerda, uma profunda cicatriz que adquiri ao imitar meu avô Manolo na sua arte de apontar lápis com formão. Ele me explicou depois, ao fazer um curativo, que era preciso certa habilidade para fazer aquilo com um formão que era necessário estar bem afiado e isso implicava em risco. Então ainda novo tive várias lições sobre essas coisas que são mais do que objetos, que com o tempo moldam nossas mãos e nosso jeito de trabalhar.. Tios, primos e meu irmão José.
Meu irmão possuía inúmeras habilidades que, desde garoto, eu admirava e buscava imitar. Ele era dono de muitas ferramentas para diferentes funções e como ele, descobri que era possível fabricá-las. José criou várias delas, para trabalhar o couro ou substituir ferramentas mecânicas, que eram muito caras. Com ele aprendi sobre o jeito de fazer brasileiro. Que por falta de dinheiro, surge a necessidade de fabricar ferramentas às vezes improvisadas, improviso, que muitas vezes se tornava permanente.
Na arte, na pintura e desenho, me aventurei sozinho, primeiro tentando imitar desenhos egípcios, que meu irmão adaptava para suas bolsas de couro cru.
Quando descobri que meu avô Manolo era contemporâneo e conterrâneo de Picasso, procurei saber mais sobre esse artista de personalidade forte e cujas cores vivas me marcaram para sempre. Minha mãe sempre foi, dona de inúmeros talentos e sempre me incentivou a produzir. Foi lendo receitas, enrolando e pesando lã para suas produções, que aprendi a ler e fazer contas. Foi também com minha mãe que aprendi a contar histórias.
Hoje, já perto dos 60 anos, gosto muito dos trabalhos manuais, macramê, trabalhos em couro, reciclagem de madeira, pintura e desenho. Observar e manusear as ferramentas adestrando mãos e olhos, aguçando os sentidos, deixando as mãos seguirem o ritmo do aprendizado me fascina. As próprias ferramentas tem um percurso, uma história e uma beleza inspiradora.
Visitar oficinas de pequena produção (cada vez mais raras em nossos tempos) me traz de volta o prazer de observar meu avô, meu pai, meu irmão e todos os homens e mulheres com quem aprendi e aprendo ao longo da vida.
Descrição da Imagem
Diversas ferramentas de trabalho artesanal (régua de metal, vários estiletes, muitas goivas com cabos de madeira, furadores, brocas, martelo de borracha com cabo de madeira, novelo de barbante marrom, agulha, afiadores e limas) espalhadas sobre uma pasta aberta. A pasta é roxa, parece ser de couro, tem várias divisórias que servem para organizar as ferramentas, e tem aparência artesanal, com costuras bastante aparentes com linha roxa em uma tonalidade um pouco mais clara.
Doador
Júlio Nieto Soares
Percurso
Brasileiro, nasceu em 1962 e vive em São Paulo/SP. As ferramentas criam e recriam arte. A arte em sua forma mais plural. Os migrantes recriam suas vidas com suas próprias ferramentas, sejam elas, a culinária, a pintura dos arabescos, a fabricação de tecidos, ou mesmo, a arte do preparo do café árabe para receber os novos amigos brasileiros.


