Narrativa
Não é qualquer panela: é a panela rosa da minha mãe. Minha mãe ganhou essa panela quando o colorido ainda não era moda nas cozinhas - ela sempre foi um pouco exagerada. Gosta de brilho, de cor, de vida. A panela da minha mãe é todo o amor dela em um objeto. Minha mãe não cozinha todo dia, mas ela atende todo e qualquer desejo meu. A quarentena me fez ficar em tempo integral em casa, revivendo as delícias de ser filha, de ter minha mãe por perto para me fazer um pão na chapa ou um leite gelado pela manhã. Pedir pra ela aos 26 anos é o mesmo que pedir ao 6: ela faz, adoça, põe amor. Minha mãe mima pelo estômago, tempera a vida. O cheiro do arroz dela é como nenhum outro. O ponto do brigadeiro é ideal. O bolo é fofo e os cheiros se espalham por toda a casa. Minha mãe se orgulha de cada ato, posta fotos, divulga. Ela é mãe com sal, pimenta, alho, açúcar, vinagre, tudo misturado. Na cozinha e fora dela, minha mãe é de um cuidado delicioso, altruísta. Ela inventa, reinventa, cria. Ela entra em meio a reunião com um copo de suco fresco, compartilha as receitas que acha - "vou fazer pra gente", diz sempre. Há muito anos saí da casa da minha mãe. Eu amo o cuidar dela e as formas como ela reinventa esse cuidar quando estou longe. Voltar pra casa na quarentena me fez ter contato novamente com as delícias (literais) do cuidar da minha mãe. Minha mãe é chef, companheira, paixão. Tudo que ela faz tem paixão, tem amor e tem a panela rosa. Ela nunca erra a mão, devo dizer. Mas parece que não é a mesma coisa se não tiver a panela rosa.