Narrativa
14 de janeiro de 2019. Nossa reunião estava marcada para às 15h30, conforme havia programado na minha agenda de capa multicolorida que lembrava penas de pavão e escrita com lápis preto ecológico, hoje ainda mais desgastado com o tempo. Não, não havia sequer a sombra da ameaça de uma pandemia de proporções catastróficas que estaria por vir.
O café do anexo do Espaço Itaú, na Augusta, charmoso com seus cartazes ilustrativos de filmes de Fellini, pareciam ainda mais convidativos para uma boa conversa. Na verdade, a primeira entrevista que resultaria em um livro sobre amizade, amor e refúgio, sob uma ótica ainda mais especial, a de um menino sírio refugiado no Brasil com sua família, fugido da Guerra e à procura de um recomeço, de uma nova vida.
Uma parte desta história eu já conhecia por intermédio de uma amiga muito querida, uma das personagens centrais desta incrível jornada de vida que sempre me pareceu ter todos os ingredientes para se tornar uma obra literária, uma peça teatral, um filme. Mônica e Khaled chegaram e, confesso, minha ansiedade estava à flor da pele. Como seria aquele menino que guardava em si tantas memórias, tantas lembranças de uma terra natal devastada pelos horrores da Guerra. Quantas alegrias e tristezas estariam contidas naquele olhar amendoado típico dos que nascem naquela região cheia de mistérios e encantamentos?
Entre cafés e palavras, descortinavam cenas de uma infância e adolescência repletas de nuances e cores. Entre cafés e palavras, descortinavam detalhes de amizade, amor e acolhimento, tão lindos que era impossível não se envolver, impossível não se emocionar.
Foram horas a fio de muitas descobertas...
Era o começo de um livro que agora, abril de 2021, está pronto depois de meses de muita dedicação, amor e revisões, e que em breve chegará às mãos de todos aqueles que quiserem conhecer o poder transformador de um acolhimento, o poder transformador do amor que, acredite, pode realmente mudar a vida das pessoas, não importa a sua nacionalidade, qual a cor de sua pele, a sua religião, a sua condição social. Basta um gesto tão simples. “Amar”. “Acolher”.
É só querer…