{"id":6840,"date":"2024-10-17T21:02:02","date_gmt":"2024-10-18T00:02:02","guid":{"rendered":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/?post_type=tnc_col_5852_item&#038;p=6840"},"modified":"2024-10-17T21:02:04","modified_gmt":"2024-10-18T00:02:04","slug":"outros-tempos","status":"publish","type":"tnc_col_5852_item","link":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/objetos-que-aproximam-dentro-de-casa\/outros-tempos\/","title":{"rendered":"Outros tempos"},"content":{"rendered":"<p>O meu lance com ampulhetas come\u00e7ou durante a gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria. \u00c9 que as ampulhetas s\u00e3o um dos s\u00edmbolos do curso, ent\u00e3o \u00e9 bastante comum que imagens desse objeto estejam estampadas em artigos destinados aos acad\u00eamicos de Hist\u00f3ria. Eram outros tempos obviamente, em que ir \u00e0 faculdade e encontrar os amigos do curso eram coisas poss\u00edveis. J\u00e1 no in\u00edcio da gradua\u00e7\u00e3o, inebriada pela empolga\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica dos in\u00edcios, tinha certeza de querer tatuar uma ampulheta em algum lugar do corpo, pois era preciso demonstrar ao mundo meu apre\u00e7o por aquela ci\u00eancia que come\u00e7ava a conhecer mais profundamente Pois bem, l\u00e1 se v\u00e3o sete anos de formada e ainda n\u00e3o fiz a tal tatuagem. Mas sigo desejando faz\u00ea-la. Al\u00e9m da tatuagem, \u00e9 claro, eu queria comprar uma ampulheta. Mas era dif\u00edcil encontrar em algum com\u00e9rcio comum da cidade, e naquela \u00e9poca as compras pela internet n\u00e3o eram ainda t\u00e3o disseminadas, de modo que, ap\u00f3s formada, por um tempo, esqueci do desejo de adquirir o objeto. Foi somente em 2016, durante uma viagem para Macei\u00f3, em Alagoas, num tempo em que viajar era coisa que ainda se fazia, que pude finalmente satisfazer o desejo de ter uma ampulheta. Enquanto caminhava numa daquelas feiras t\u00edpicas de cidades tur\u00edsticas, em que artes\u00e3os locais comercializam suas artes, procurando por qualquer coisa que pudesse trazer para casa como lembran\u00e7a da viagem, me deparei com diversas ampulhetas expostas na entrada de uma das lojinhas. De imediato, decidi que minha lembran\u00e7a daquela viagem seria a ampulheta. Depois de uma breve indecis\u00e3o quanto a qual cor escolher (o objeto estava dispon\u00edvel em v\u00e1rias colora\u00e7\u00f5es: rosa, amarela, verde, azul, enfim o arco-iris todo), finalmente comprei minha ampulheta. Voltamos eu e minha ampulheta amarela para Foz do Igua\u00e7u. Chegando em casa, como de costume, demorei meses para desfazer totalmente minha mala, e j\u00e1 nem lembrava da ampulheta. Quando, por fim, a resgatei de dentro da mala, ela foi direto para o guardaroupa. E por muito tempo a\u00ed permaneceu, esquecida no meio das roupas e demais quinquilharias que formam a assustadora confus\u00e3o do meu guarda-roupa. Assim, a ampulheta esteve a\u00ed at\u00e9 meados de mar\u00e7o desse ano, e ent\u00e3o veio o isolamento ao qual o Covid-19 nos obrigou. Queria poder dizer que, assim como muitas pessoas, decidi \u201cbotar a casa em ordem\u201d nos primeiros dias da quarentena, e que ent\u00e3o, a partir dessa arruma\u00e7\u00e3o, encontrei a ampulheta. Mas n\u00e3o foi assim, o mundo como o conhecemos est\u00e1 prestes a acabar, portanto, \u00e0s favas com a limpeza. Encontrei a ampulheta por acaso e, passados quase quatro anos de sua aquisi\u00e7\u00e3o, finalmente decidi a expor em uma das prateleiras da minha sala. Ent\u00e3o, desde que a coloquei na prateleira, tem acontecido de que, n\u00e3o raro, ela me recorde o quanto erramos enquanto humanidade e o quanto desperdi\u00e7amos de tempo com coisas sem a menor import\u00e2ncia, sem o menor o significado para nossa exist\u00eancia. E agora, justamente agora, que a humanidade parece n\u00e3o ter mais muito tempo, esse objeto ganhou um outro sentido para mim. Na imin\u00eancia de n\u00e3o ter mais tempo, penso agora o quanto temos medido nosso tempo de forma equivocada. Espero que em tempos vindouros, minha ampulheta seja apenas s\u00edmbolo de um per\u00edodo dif\u00edcil em que fic\u00e1vamos em casa esperando e torcendo para ainda haver futuro. E nesse tempo outro, nesse tempo ainda porvir, que eu possa, tamb\u00e9m, olhar esse objeto e v\u00ea-lo como signo de um tempo que, felizmente, quem sabe, j\u00e1 ter\u00e1 ficado para tr\u00e1s.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":6841,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","class_list":["post-6840","tnc_col_5852_item","type-tnc_col_5852_item","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","tnc_tax_19-foz-do-iguacu","tnc_tax_5-escritorio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5852_item\/6840"}],"collection":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5852_item"}],"about":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/tnc_col_5852_item"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6840"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5852_item\/6840\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6841"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6840"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}