{"id":6114,"date":"2024-10-17T20:51:32","date_gmt":"2024-10-17T23:51:32","guid":{"rendered":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/?post_type=tnc_col_5852_item&#038;p=6114"},"modified":"2024-10-17T20:51:34","modified_gmt":"2024-10-17T23:51:34","slug":"caco","status":"publish","type":"tnc_col_5852_item","link":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/objetos-que-aproximam-dentro-de-casa\/caco\/","title":{"rendered":"Caco"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Ao longo da hist\u00f3ria, a humanidade associou objetos ao aspecto m\u00e1gico de suas mitologias. Diante de muita quest\u00f5es inexplic\u00e1veis, o medo assaltava o esp\u00edrito. Perder-se da realidade era comum \u2013 como ainda \u00e9 at\u00e9 hoje \u2013 e para que a realidade sens\u00edvel, f\u00edsica, pudesse atingir subitamente o corpo e emanar sinais de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia na terra, se agarravam todos a objetos t\u00e1teis, conferindo poder. A medicina de l\u00edderes espirituais recomendava o uso de amuletos para se proteger de doen\u00e7as e evitar qualquer mal. Fico me perguntando se n\u00e3o podemos de certo modo fazer essa correspond\u00eancia com objetos vindo de pessoas queridas, ofertado a n\u00f3s com a mesma intencionalidade daqueles que confeccionavam seus pr\u00f3prios amuletos: presen\u00e7a. E presen\u00e7a \u00e9 prote\u00e7\u00e3o, \u00e9 acompanhamento, fortalecimento e acolhimento. Presen\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 tempo do agora, que \u00e9 o tempo do sens\u00edvel, da experi\u00eancia f\u00edsica de troca e recebimento. Quando seguro algum objeto, tudo isso vem em algum n\u00edvel, mesmo que n\u00e3o seja de forma consciente. Imagino essa rela\u00e7\u00e3o com o amuleto, mas os objetos afetivos s\u00e3o s\u00f3 o vulto disso, essas fun\u00e7\u00f5es est\u00e3o esmaecidas pelo tempo e por nosso afastamento das impress\u00f5es mais intuitivas. Caco \u00e9 um bicho de pel\u00facia. Nem assisti muito ao programa de tv desse personagem, mas Caco era bem carism\u00e1tico e conquistou uma gera\u00e7\u00e3o inteira. N\u00e3o \u00e9 pelo programa, mas tem enorme significado para mim. Sou residente em S\u00e3o Gon\u00e7alo, no Rio, e na primeira viagem que fiz a S\u00e3o Paulo para visitar a casa de um amigo e fazer passeios por l\u00e1 recebi dele o Caco que estava na caixa de pequenas doa\u00e7\u00f5es. Meu amigo me deu, assim, como n\u00e3o quisesse nada e, de repente, fiz do sapo o meu mascote. Levei o Caco a trilhas, inclusive uma em que me perdi com minha melhor amiga e a gente achou que morreria pela floresta. Antes desse desespero todo, tirei v\u00e1rias fotos do Caco pela trilha. Levei ao trabalho, interagindo com meus colegas de mesa, alertando a hora do caf\u00e9 e fazendo outras brincadeiras que tornavam o dia mais leve. Levei para casa de outros amigos e muitos outros lugares. Tudo porque aquele objeto veio de uma pessoa que amo. Dei significado ao sapo, meio que sem visar isso. At\u00e9 porque j\u00e1 continha algum significado nele: as alegrias que vivi com amigos em SP. Mem\u00f3rias. \u00c9 muito louco o personagem ter nome Caco. Essa palavra me traz \u00e0 cabe\u00e7a tantas imagens&#8230; \u00e9 justamente no momento em que mais me encontro \u201caos cacos\u201d, que tenho acolhimento em um objeto com o mesmo nome. Recorro a um fragmento, do meu passado, que faz parte de mim. Somente agora, em plena quarentena, deixando o Caco pra l\u00e1 e pra c\u00e1 na minha cama, onde \u00e0s vezes me deito para conversar por videochamadas, onde durmo jogando o Caco em algum canto ou em cima da cabe\u00e7a ou colocando perto do travesseiro, \u00e9 que me dei conta de quanto poder ele tem \u2013 minha m\u00e3e falou que ela tem mania de colocar duas mantas em cima porque acha que o peso das cobertas a faz dormir melhor e reclamou que velho tem manias; mas acho que adotamos h\u00e1bitos seja qual for nossa idade. Nessas mesmas videochamadas, j\u00e1 relatei as hist\u00f3rias pelas quais o Caco atravessou comigo, fazendo as pessoas rirem das minhas pequenas loucuras, mas produzindo com isso o mesmo bem estar e alegria que vivi quando o recebi. Al\u00e9m disso, estamos todos em necessidades emocionais e \u00e9 preciso produzir presen\u00e7a, preencher o vazio que causa medo. Recobrar mem\u00f3rias tem sido a b\u00fassola para sair de tudo isso sem grandes feridas pessoais \u2013 j\u00e1 que as coletivas est\u00e3o sendo insuportavelmente incont\u00e1veis &#8211; e objetos afetivos nos caem como raios em momentos obscuros. Se isso n\u00e3o \u00e9 de alguma forma um amuleto m\u00e1gico, talvez eu nunca tenha aprendido o que \u00e9.<br \/>\n&#8220;<\/p>\n","protected":false},"featured_media":6115,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","class_list":["post-6114","tnc_col_5852_item","type-tnc_col_5852_item","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","tnc_tax_19-sao-goncalo","tnc_tax_5-quarto-das-criancas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5852_item\/6114"}],"collection":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5852_item"}],"about":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/tnc_col_5852_item"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6114"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5852_item\/6114\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6115"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}