{"id":6075,"date":"2024-10-17T20:49:53","date_gmt":"2024-10-17T23:49:53","guid":{"rendered":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/?post_type=tnc_col_5852_item&#038;p=6075"},"modified":"2024-10-17T20:50:15","modified_gmt":"2024-10-17T23:50:15","slug":"cacto-furado-e-cha-de-camomila","status":"publish","type":"tnc_col_5852_item","link":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/objetos-que-aproximam-dentro-de-casa\/cacto-furado-e-cha-de-camomila\/","title":{"rendered":"Cacto Furado e Ch\u00e1 de Camomila"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria do cacto furado \u00e9 dif\u00edcil de contar, porque vem de coisas vividas que foram dif\u00edceis, coisas que tem a ver com a hist\u00f3ria do ch\u00e1 de camomila. Vou come\u00e7ar a contar pelo meio do caminho, na noite do tal ch\u00e1, num lugar bem distante daqui, mas n\u00e3o fisicamente falando. Fisicamente falando, seriam apenas 976 km de dist\u00e2ncia (da minha casa at\u00e9 o Hospital das Cl\u00ednicas da USP, pela BR-101). O lugar distante que me refiro \u00e9 meio que um p\u00e2ntano emocional, escuro, \u00famido e mon\u00f3tono. H\u00e1<br \/>\nquase exatamente 1 ano, eu fui a S\u00e3o Paulo, porque era a semana do anivers\u00e1rio do meu pai. Ele comemorou num quarto grande, no quarto andar de um pr\u00e9dio enorme cheio de passagens il\u00f3gicas desenhadas por rampas, corredores, elevadores e escadas que o interligavam a outros pr\u00e9dios igualmente grandes e labir\u00ednticos. Depois de 9 meses de seguidas interna\u00e7\u00f5es aqui em Vit\u00f3ria, l\u00e1 em SP minha m\u00e3e e irm\u00e3 que se revezavam para acompanha-lo j\u00e1 h\u00e1 uns 3 meses. Eu fiquei sozinha em casa por causa do trabalho e ia para S\u00e3o Paulo nos feriados, fazia tempos que n\u00e3o era acompanhante e na minha primeira noite na viagem desta vez, eu j\u00e1 estava exausta, sem nem um pingo de energia como se fosse minha trig\u00e9sima noite consecutiva no hospital. Meu pai tamb\u00e9m estava exausto, a dois dias de completar 1 ano de interna\u00e7\u00f5es e 59 anos de vida. Depois de meses de gentilezas, simpatia, tentativas de bom humor com todos que trabalhavam ou dividiam quarto com ele, de for\u00e7a e esperan\u00e7a consigo mesmo e de sil\u00eancios e esfor\u00e7o de conversa conosco, nesta noite ele queria apenas ficar quieto, im\u00f3vel e calado. N\u00e3o sei se voc\u00ea j\u00e1 experimentou a sensa\u00e7\u00e3o de estar chegando no limite de algo, eu imagino que cada um sinta esse momento chegar de formas diferentes, eu n\u00e3o sei como meus pais e minha irm\u00e3 sentiram, mas sei que est\u00e1vamos todos mais ou menos nesse ponto, quase no limite. Para mim essa sensa\u00e7\u00e3o se configurou num total apagamento de tudo ao redor. Adormecimento do bom e do ruim. Voc\u00ea apenas est\u00e1 ali. Inerte, cansado, desligado de qualquer conex\u00e3o com qualquer coisa. Lembro que eu fazia a p\u00e9 o caminho do apartamento que estava hospedada at\u00e9 o hospital e que eu tentava restabelecer a conex\u00e3o, acordar. (Gosto muito de viajar principalmente para andar pelos lugares. N\u00e3o quero dizer visitar cidades ou paisagens incr\u00edveis, quer dizer isso tamb\u00e9m, mas digo s\u00f3 andar para ver. Qualquer lugar desconhecido serve) E eu tentava evocar esse h\u00e1bito no caminho para o hospital, eu escolhia ruas diferentes, via novas vitrines, \u00e1rvores, portas e janelas bonitas, jardins, placas, pinturas, muros, na inten\u00e7\u00e3o de acordar o olhar, acender as luzes, ver novamente. S\u00f3 que n\u00e3o funcionava, eu at\u00e9 via, \u201colha bonito isso, diferente aquilo, interessante&#8230;\u201d, mas essa beleza n\u00e3o ressoava mais em lugar nenhum, entrava em mim, topava um quarto vazio, oco, batia nas<br \/>\nparedes e voltava para fora, sem provocar absolutamente nada, meu olhar estava quebrado. Naquela noite, no quarto escuro, silencioso, frio de inverno paulista, o que senti n\u00e3o foi nem que o olhar estava quebrado, porque quebrado conserta. Senti que eu o tinha perdido mesmo. Desesperan\u00e7a total. Conhece essa sensa\u00e7\u00e3o? Eu definiria como<br \/>\numa ang\u00fastia ap\u00e1tica, ap\u00e1tica porque ang\u00fastia me remete a inquieta\u00e7\u00e3o e eu n\u00e3o me sentia inquieta, n\u00e3o havia movimento nenhum. Era s\u00f3 uma apatia de quem t\u00e1 chegando no limite de suportar algo. Quando deu 22h, uma mo\u00e7a bateu \u00e0 porta trazendo a ceia. Meu pai reservava esse lanche para comer junto com o rem\u00e9dio que vinha sempre \u00e0 meia-noite, numa tentativa de agredir menos seu organismo (o que para mim \u00e0quela altura n\u00e3o fazia mais o menor sentido, mas ok). Quando a enfermeira entrou com o rem\u00e9dio duas horas depois, meu pai perguntou: o que veio no lanche hoje? Biscoito e ch\u00e1. Biscoito salgado? N\u00e3o, doce, tipo maisena. Com uma cara de leve desapontamento acrescentou, hum t\u00e1, me d\u00e1 s\u00f3 o biscoito e \u00e1gua, pode tomar o ch\u00e1, voc\u00ea. Eu me lembro de entregar as coisas para ele, esperar de p\u00e9 ao lado da cama (os segundos de assistir uma pessoa engolir sei l\u00e1 o 50\u00ba comprimido do dia s\u00e3o longos), pegar o copo jogar na lixeira e voltar para a minha cadeira reclin\u00e1vel cheia de cobertores. Eu sentei e encarei por um tempo a mesinha com o copo de ch\u00e1. N\u00e3o tinha nada de novo, nada de belo, de interessante, emocionante acontecendo, aparentemente seriam s\u00f3 mais alguns segundos de vida que passam e v\u00e3o direto para a lixeira da nossa mem\u00f3ria. Mas, por alguma raz\u00e3o, o que eu senti ali me marcou, eu peguei o celular e<br \/>\nescrevi no bloco de notas 20 linhas sobre essa sensa\u00e7\u00e3o de desesperan\u00e7a, algo bem depressivo sobre como a vida de tudo nesse planeta \u00e9 um monte de fios embolados, cheios de n\u00f3s, sem ningu\u00e9m interessado de verdade em organizar, rs. Acho que me marcou porque foi um momento de clareza, n\u00e3o de racioc\u00ednio claro l\u00f3gico linear, mas<br \/>\numa clareza de viver o que est\u00e1 sentindo, de encarar aquele sofrimento. Enfim, guardei o celular e o ch\u00e1 continuava em cima da mesinha, resolvi tom\u00e1-lo e continuei divagando de uma forma mais consciente, verbalizando, como se eu estivesse escrevendo ainda. Voltei para a cadeira, com o ch\u00e1 na m\u00e3o, j\u00e1 estava frio \u00f3bvio, tomei o primeiro gole, era de camomila. E pensei, se hoje fosse o \u00faltimo dia de vida do meu pai, a \u00faltima coisa que ele comeu seria esse biscoitinho sem gra\u00e7a, que ele preferia que fosse salgado. Ei! E se hoje fosse meu \u00faltimo dia? Eu tive esse ch\u00e1, frio, de camomila (sou uma pessoa de poucas exig\u00eancias e com o paladar bem democr\u00e1tico, s\u00e3o rar\u00edssimas as coisas que eu n\u00e3o gosto. De todos os sabores de ch\u00e1 poss\u00edveis, camomila \u00e9 o que eu n\u00e3o gosto. Foi justamente ele que veio, e eu tomei). Provavelmente eu<br \/>\nadicionei um \u201cque bosta ein\u201d em pensamento, mas depois percebi uma coisa que pode parecer bem \u00f3bvia se voc\u00ea pensar racionalmente, mas \u00e9 algo bem no caminho oposto de \u00f3bvio e f\u00e1cil quando se trata de se pensar sentindo-sabendo. Percebi que a vida (\u00e9 louca, nem vou me dar ao trabalho de explicar ou de entender por completo), mas ela<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 sobre o que voc\u00ea faz nos \u00faltimos minutos, nos \u00faltimos dias, no \u00faltimo ano, sobre o que voc\u00ea faz no final. N\u00e3o \u00e9 sobre quem voc\u00ea era ou em qual emprego, relacionamento, casa, cidade voc\u00ea estava por \u00faltimo, antes de morrer. Todos os dias tem alguma import\u00e2ncia, desde que voc\u00ea esteja de fato naquele dia, naquele emprego, naquele relacionamento, naquela casa, naquela cidade, naquela vida, a ponto de conseguir enxergar. Eu n\u00e3o estou falando de \u201cviver no presente\u201d, de certa forma \u00e9 isso tamb\u00e9m, mas \u00e9 algo como experimentar o que voc\u00ea tem agora, vai ter coisa boa e ruim, vai ter mem\u00f3rias do passado e ideias de futuro misturados ali no meio, vai ter d\u00favidas e certezas, vai ter biscoito maisena, ch\u00e1 frio, caf\u00e9 quente, vinho, \u00e1gua de coco, sorvete de menta com casquinha de chocolate. Cada dia vai ter uma coisa, ou mais de uma, mas elas v\u00e3o durar s\u00f3 um dia. E enquanto a gente se recursar a experimentar, at\u00e9 aquilo que a gente n\u00e3o gosta, a sensa\u00e7\u00e3o que eu fiquei, \u00e9 que \u00e9 a\u00ed que n\u00e3o h\u00e1 vida, onde n\u00e3o estamos vivendo. Meu pai teve alta no final daquele ano, 2019. Em janeiro voltamos a S\u00e3o Paulo para exames de controle, que tiveram resultados excelentes. Ele continuaria em tratamento, mas em fim t\u00ednhamos esperan\u00e7as. Em mar\u00e7o veio a pandemia no pa\u00eds, e \u00e0 medida que as informa\u00e7\u00f5es chegavam percebemos que para o meu pai com as especificidades do seu tratamento o covid seria fatal. Ent\u00e3o, meus pais foram para o interior, numa casinha emprestada pelos tios da minha m\u00e3e. Na minha segunda<br \/>\n acompanhar a cronologia da coisa, ent\u00e3o recapitulando: meu pai ficou doente exatamente no dia da sua festa de 58 anos, no anivers\u00e1rio de 59 ele ainda estava em tratamento no hospital em S\u00e3o Paulo, e agora, ao completar 60 anos ele estava de volta em casa, junto com um cactozinho furado, que tamb\u00e9m quase morreu, e que abre uma flor que dura s\u00f3 um dia. A flor abriu na noite de 24 de junho de 2020, bem no dia  do anivers\u00e1rio de 60 anos do meu pai. No outro dia a florzinha j\u00e1 estava morta, mas espero que a essa altura voc\u00ea j\u00e1 tenha entendido que abriu uma nova em seguida&#8230; Acho que ficou meio confuso, mas eu avisei que talvez n\u00e3o estivesse totalmente pronta para explicar como a hist\u00f3ria do ch\u00e1 de camomila e do cacto furado se conectam. Se voc\u00ea conseguiu chegar at\u00e9 aqui e encontrar sentido, me manda um oi! rs<\/p>\n","protected":false},"featured_media":6076,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","class_list":["post-6075","tnc_col_5852_item","type-tnc_col_5852_item","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","tnc_tax_19-serra","tnc_tax_5-area-de-servico-e-quintal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5852_item\/6075"}],"collection":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5852_item"}],"about":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/tnc_col_5852_item"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6075"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5852_item\/6075\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6076"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}