{"id":5886,"date":"2024-10-17T20:46:07","date_gmt":"2024-10-17T23:46:07","guid":{"rendered":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/?post_type=tnc_col_5813_item&#038;p=5886"},"modified":"2024-10-17T20:46:08","modified_gmt":"2024-10-17T23:46:08","slug":"ferramentas","status":"publish","type":"tnc_col_5813_item","link":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/memoria-do-refugio-e-da-migracao-em-objetos\/ferramentas\/","title":{"rendered":"Ferramentas"},"content":{"rendered":"<p>Ferramentas\t&#8220;Quem faz artesanato n\u00e3o vende apenas um produto. Vende um pedacinho do cora\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Hoje ele senhor das suas m\u00e3os e das ferramentas&#8221; (Chico Buarque de Holanda)<\/p>\n<p>Ferramentas sempre me encantaram, Meu av\u00f4 materno (Manuel Nieto Velasco) de fam\u00edlia malaguenha como Pablo Picasso, assim como meu av\u00f4 paterno (Jo\u00e3o Aniceto), que viveu na Cordisburgo do grande Guimar\u00e3es Rosa e que n\u00e3o conheci, tinham suas vidas pautadas pelas ferramentas dos s\u00e9culos XIX e XX. Lembro-me da destreza de meu av\u00f4 Manolo com o serrote e os form\u00f5es, dos entalhes, dos encaixes que fazia na madeira e como fazia reciclagem, transformando m\u00f3veis e brinquedos antes mesmo dessa palavra ganhar a for\u00e7a que tem hoje.<\/p>\n<p>Meu pai, com seus bra\u00e7os fortes, empunhava grandes marretas de ferro, com as quais batia arames que haviam servido para amarrar fardos de celulose. Ele os enrolava em chapas de ferro fazendo molas e depois as abria e tecia telas, alambrados, com os quais separava as galinhas da horta em nosso quintal. As marretas e barras de ferro eram pesadas para o menino franzino que eu era, o que aumentava ainda mais a minha admira\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a dos bra\u00e7os que erguiam as marretas. <\/p>\n<p>Em sua m\u00e3o canhota faltava um dedo, engolido pela grande, imensa m\u00e1quina\u00a0de papel na qual ele trabalhou por 40 anos. Claro que a destreza e os bra\u00e7os fortes eram importantes nas opera\u00e7\u00f5es que transformavam\u00a0mat\u00e9ria-prima em objetos, cercas, brinquedos, m\u00f3veis. Mas ferramentas\u00a0de qualidade eram igualmente fundamentais. Stanley, Ramada, Corneta&#8230;nomes que me v\u00eam \u00e0 mem\u00f3ria\u00a0quando se trata de ferramentas. Vinham em geral do outro lado do mundo, em caixas de madeira e tinham lendas e segredos em sua hist\u00f3ria. <\/p>\n<p>Assim, trago em meu dedo indicador da m\u00e3o esquerda, uma profunda cicatriz que adquiri ao imitar meu av\u00f4 Manolo na sua arte de apontar l\u00e1pis com form\u00e3o. Ele me explicou depois, ao fazer um curativo, que era preciso certa habilidade para fazer aquilo com um form\u00e3o que era necess\u00e1rio estar bem afiado e isso implicava em risco. Ent\u00e3o ainda novo tive v\u00e1rias li\u00e7\u00f5es sobre essas coisas que s\u00e3o mais do que objetos, que com o tempo moldam nossas m\u00e3os e nosso jeito de trabalhar.. Tios, primos e meu irm\u00e3o Jos\u00e9. <\/p>\n<p>Meu irm\u00e3o possu\u00eda in\u00fameras habilidades que, desde garoto, eu admirava e buscava imitar. Ele era dono de muitas ferramentas para diferentes fun\u00e7\u00f5es e como ele, descobri que era poss\u00edvel fabric\u00e1-las. Jos\u00e9 criou v\u00e1rias delas, para trabalhar o couro ou substituir ferramentas mec\u00e2nicas, que eram muito caras. Com ele aprendi sobre o jeito de fazer brasileiro. Que por falta de dinheiro, surge a necessidade de fabricar ferramentas \u00e0s vezes improvisadas, improviso, que muitas vezes se tornava permanente. <\/p>\n<p>Na arte, na pintura e desenho, me aventurei sozinho, primeiro tentando imitar desenhos eg\u00edpcios, que meu irm\u00e3o adaptava para suas bolsas de couro cru. <\/p>\n<p>Quando descobri que meu av\u00f4 Manolo era contempor\u00e2neo e conterr\u00e2neo de Picasso, procurei saber mais sobre esse artista de personalidade forte e cujas cores vivas me marcaram para sempre. Minha m\u00e3e sempre foi, dona de in\u00fameros talentos e sempre me incentivou a produzir. Foi lendo receitas, enrolando e pesando l\u00e3 para suas produ\u00e7\u00f5es, que aprendi a ler e fazer contas. Foi tamb\u00e9m com minha m\u00e3e que aprendi a contar hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>Hoje, j\u00e1 perto dos 60 anos, gosto muito dos trabalhos manuais, macram\u00ea, trabalhos em couro, reciclagem de madeira, pintura e desenho. Observar e manusear as ferramentas adestrando m\u00e3os e olhos, agu\u00e7ando os sentidos, deixando as m\u00e3os seguirem o ritmo do aprendizado me fascina. As pr\u00f3prias ferramentas tem um percurso, uma hist\u00f3ria e uma beleza inspiradora.<\/p>\n<p>Visitar oficinas de pequena produ\u00e7\u00e3o (cada vez mais raras em nossos tempos) me traz de volta o prazer de observar meu av\u00f4, meu pai, meu irm\u00e3o e todos os homens e mulheres com quem aprendi e aprendo ao longo da vida.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":5887,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","format":"standard","class_list":["post-5886","tnc_col_5813_item","type-tnc_col_5813_item","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5813_item\/5886"}],"collection":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5813_item"}],"about":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/tnc_col_5813_item"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5886"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/tnc_col_5813_item\/5886\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5887"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museudascoisasbanais.com.br\/exposicao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5886"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}